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O PROVINCIANISMO PORTUGUÊS

por oligofrénico, em 14.06.07

"Se, por um daqueles artifícios cómodos, pelos quais simplificamos a realidade com o fito de a compreender, quisermos resumir num síndroma o mal superior português, diremos que esse mal consiste no provincianismo. O facto é triste, mas não nos é peculiar. De igual doença enfermam muitos outros países, que se consideram civilizantes com orgulho e erro.

O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela - em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz.

O síndroma provinciano compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia.

Se há característico que imediatamente distinga o provinciano, é a admiração pelos grandes meios. Um parisiense não admira Paris; gosta de Paris. Como há-de admirar aquilo que é parte dele? Ninguém se admira a si mesmo, salvo um paranóico com o delírio das grandezas. Recordo-me de que uma vez, nos tempos do "Orpheu", disse a Mário de Sá-Carneiro: «V. é europeu e civilizado, salvo em uma coisa, e nessa V. é vítima da educação portuguesa. V. admira as grandes cidades. Se V. tivesse sido educado no estrangeiro, e sob o influxo de uma grande cultura europeia, como eu, não daria pelas grandes cidades. Estavam todas dentro de si».

O amor ao progresso e ao moderno é a outra forma do mesmo característico provinciano. Os civilizados criam o progresso, criam a moda, criam a modernidade; por isso não lhes atribuem importância de maior. Ninguém atribui importância ao que produz. Quem não produz é que admira a produção. Diga-se incidentalmente: é esta uma das explicações do socialismo. Se alguma tendência têm os criadores de civilização, é a de não repararem bem na importância do que criam. O Infante D. Henrique, com ser o mais sistemático de todos os criadores de civilização, não viu contudo que prodígio estava criando - toda a civilização transoceânica moderna, embora com consequências abomináveis, como a existência dos Estados Unidos. Dante adorava Vergílio como um exemplar e uma estrela, nunca sonharia em comparar-se com ele; nada há todavia, mais certo que o ser a «Divina Comédia» superior à «Eneida». O  provincianismo, porém, pasma do que não fez, precisamente porque não o fez; e orgulha-se de sentir esse pasmo. Se assim não sentisse, não seria provinciano.

É na capacidade de ironia que reside o traço mais fundo do provincianismo mental. Por ironia entende-se, não o dizer piadas, como se crê nos cafés e nas redacções, mas o dizer uma coisa para dizer o contrário. A essência da ironia consiste em não se conseguir descobrir  o segundo sentido do texto por nenhuma palavra dele, deduzindo-se porém esse segundo sentido do facto de ser impossível dever o texto dizer aquilo que diz. Assim, o maior de todos os ironistas, Swift, redigiu, durante uma das fomes da Irlanda, e como sátira brutal à Inglaterra, um breve escrito prpondo uma solução para essa fome. Propõe que os irlandese comam os próprios filhos. Examina com grande seriedade o problema, e expõe com com clareza e ciência a utilidade das crianças de menos de sete anos como bom alimento. Nenhuma palavra nessas páginas assombrosas quebra a absoluta gravidade da exposição; ninguém poderia concluir, do texto, que a proposta não fosse feita com absoluta seriedade, se não fosse a circunstância, exterior ao texto, de que uma proposta dessas não poderia ser feita a sério.

A ironia é isto. Para a sua realização exige-se um domínio absoluto da expressão, produto de uma cultura intensa; e aquilo a que os ingleses chamam detachement - o poder de afastar-se de si mesmo, de dividir-se em dois, produto daquele «desenvolvimento da largueza de consciência» em que, segundo o historiador alemão Lamprecht, reside a essência da civilização. Para a sua realização exige-se, em outras palavras, o não se ser provinciano.

O exemplo mais flagrante do provicianismo português é Eça de Queirós. É o exemplo mais flagrante porque foi o escritor português que mais se preocupou (como todos os provincianos) em ser civilizado. As suas tentativas de ironia aterram não só pelo grau de falência, senão também pela inconsistência dela. Neste capítulo, «A Relíquia», Paio Pires a falar francês, é um documento doloroso. As próprias páginas sobre Pacheco, quase civilizadas, são estragadas por  vários lapsos verbais, quebradores da imperturbalidade que a ironia exige, e arruinadas por inteiro na introdução do desgraçado episódio da víuva de Pacheco. Compare-se Eça de Queirós, não direi já com Swift, mas, por exmplo, com Anatole France. Ver-se-á a diferença entre um jornalista, embora brilhante, de província, e um verdadeiro, se bem que limitado, artista.

Para o provincianismo há só uma terapêutica: é o saber que ele existe. O provincianismo vive da inconsciência; de nos supormos civilizados quando não o somos, de nos supormos civilizados precisamente pelas qualidades por que o não somos. O princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro. Quando um doido sabe que está doido, já não está doido. Estamos perto de acordar, disse Novalis, quando sonhamos que sonhamos." 

 

Fernando Pessoa: "O Provincianismo Português", Editorial Nova Ática, Lisboa 2006

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publicado às 23:25

ENTÃO PALESTINA?

por oligofrénico, em 12.06.07

O Hamas e a Fatah estão em luta fratricida. Tão empenhados estão, que se esqueceram de Israel. Israel agradece.

Isto não iliba Israel da sua conduta no Médio Oriente, mas permite perceber melhor a  idiossincrasia política da Palestina.

Agora, estou convencido que, mesmo sem Israel naquele cenário, era muito difícil estabelecer um clima de paz e fraternidade na região - berço de três religiões monoteístas!

 

M. Orlando

 

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publicado às 23:30

ESTAMOS A VOLTAR AO TEMPO DA OUTRA SENHORA

por oligofrénico, em 12.06.07

Após ter criticado (um direito cívico) declarações de Maria de Lurdes Rodrigues (Ministra da Educação), a Associação Portuguesa de Matemática APM ) foi convidada, por um secretário de estado do ministério, a deixar a Comissão de Acompanhamento do Plano de Matemática. Nas palavras do secretário de estado, ao ter aquele comportamento, a APM auto-excluiu-se do processo.

É assim mesmo! Tem de haver respeitinho, senão o país não anda para a frente. Quem não está connosco, está contra nós. Onde é que eu já ouvi este discurso?

Mais dia menos dia, estão a obrigar os funcionários públicos a assinarem uma qualquer declaração de fidelidade incondicional ao Estado. Onde é que eu já vi isto?

Sempre a criticar! O país precisa é de gente que trabalhe e não atrapalhe. Para pensar estão cá os governantes.

 

O. Pinto

 

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publicado às 23:13

A PROPÓSITO DA OTA

por oligofrénico, em 10.06.07

"Os casos vi que os rudos marinheiros,

Que tem por mestra a longa experiência,

Contam por certos sempre e verdadeiros,

Julgando as coisas só pela aparência,

E que os que tem juízos mais inteiros,

Que só por puro engenho e por ciência

Vem do mundo os segredos escondidos,

Julgam por falsos ou mal entendidos."

 

Luís de Camões: "Os Lusíadas"

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publicado às 23:57

CAVACO CONDECORA NO 10 DE JUNHO

por oligofrénico, em 10.06.07

Cavaco Silva, o nosso querido presidente, condecorou cerca de 30 personalidades, durante as comemorações do 10 de Junho. Embora tenha abrandado o ritmo do seu antecessor, eu continuo a correr o sério risco, de começar a fazer parte dum grupo minoritário em Portugal: os não-condecorados. Não me convinha.

 

M. Pinto

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publicado às 23:50

CIMEIRA DO G8

por oligofrénico, em 10.06.07

Os oito países mais poderosos do planeta decidiram ajudar África. Para isso vão disponibilizar 50 mil milhões de dólares! Sempre ouvi dizer que, quando a esmola é grande, o pobre desconfia. Portanto, é legítimo perguntar: quanto é que já sacaram de lá?

 

M. Orlando

 

 

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publicado às 23:36

BRAGAPARQUES FOREVER

por oligofrénico, em 07.06.07

Pelos vistos, desde a presidência de João Soares, que  a "Bragaparques"  actua em Lisboa. Significa isto, que as negociatas há muito se faziam, ao contrário do que deram a entender as forças políticas envolvidas no processo. É a machadada final na credibilidade do poder autárquico. Sempre a mentir. Sempre a confundir. Sempre a omitir. Já ninguém acredita em ninguém.

Haja alguém, que ponha cobro a esta pouca vergonha!

 

O. Pinto

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publicado às 23:24

POLÍTICOS

por oligofrénico, em 05.06.07

(...) lembremos, como curiosidade, esta crítica pitoresca de D. Francisco Manuel de Melo, no seu Diálogo das Fontes: «Começa-se por um pequeno de mau ensino, sua ponta de soberbo, falar em matérias altas, posto que delas se não saiba a metade do que se diz; acompanhar aos grandes ministros, visitá-los e ser-lhes molesto. Fingir zelo e siso, quer o haja quer não; guardar oportunas correspondências; desejar das damas, praticar sobre as novas, acudir ao paço, uma migalha de mexerico, quatro dedos de falar à vontade e gabar o que não importa uma mão travessa; achar razão, graça e justiça aos validos, importuno em lhes fazer cortesia, pontual em doenças; noivados e boas-festas, e ser liberal, que é oiro sobre azul; que com isto, e outra muita proluxidade, não pode aos trinta e cinco anos escapar vosso nome de andar nas consultas, quando menos em terceiro lugar»; e o autor acrescenta, no mesmo diálogo:«lástima é que para escolher melão se façam mais provas e diligências de sua bondade que para um conselheiro e para um ministro"

 

António Sérgio: "Ensaios" - Tomo I

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publicado às 22:41

ANTI-GLOBALIZAÇÃO

por oligofrénico, em 04.06.07

O "Schwarzer Block" (Bloco Negro), grupo radical anti-globalização, manifestou-se violentamente (carros incendiados,  cocktails Molotov, etc.) em Rostock, contra a cimeira do G8, que se irá realizar de 6 a 8 de Junho na estância alemã de Helligendamm.

Com alternativas destas, venha o diabo e escolha!

 

M. Pinto

 

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publicado às 13:54

ISALTINO, MENDES, AUTARQUIAS, UNIVERSIDADES, ÉTICA

por oligofrénico, em 04.06.07

Isaltino Morais, presidente da Câmara Municipal de Oeiras, arguido em vários processos judiciais, pediu explicações à Universidade Atlântica, acerca das senhas de presença, refeições, deslocações e combustíveis pagos a Marques Mendes, quando este era presidente da direcção da "Ensino, Investigação e Administração" - empresa proprietária da referida Universidade. Marques Mendes foi nomeado para aquele cargo por Isaltino Morais, ao que tudo indica ilegalmente, pois o "liliput laranja" era, na altura, presidente da Assembleia Municipal de Oeiras (cargos incompatíveis). Recorde-se que a CMO é proprietária de 41% daquela instituição.

O que dizer?

Tachos.

Compadrio.

Fuga ao fisco  (dúvida?).

Falta de ética.

Promiscuidade.

Ilegalidade.

Tristeza.

O que perguntar?

Será que haverá em Portugal algum político, que não esteja metido em alhadas destas?

Será com políticos deste jaez que Portugal se desenvolverá?

Será que é a falta de produtividade dos nossos trabalhadores, que é a grande responsável pelo nosso atraso económico?

 

M. Pinto

 

 

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publicado às 13:18



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